Algo de Novo
por Luiz Antonio Assis Brasil
Este livro é um acontecimento a ser comemorado.
Ele é único, por evidenciar uma realidade raramente vista na literatura do Rio Grande do Sul: a participação da etnia africana na formação cultural e no próprio éthos gaúcho.
A escravidão, que muitos consideram "branda" em nosso Estado, na verdade foi tão cruel como em outros lados do País. Para agravar, no Sul tivemos várias revoluções. A de 1893, sabe-se, foi selvagem, e nela os ex-escravos sofreram mais que os outros (como, aliás, aconteceu na Guerra dos Farrapos); participaram tanto de um lado como do lado oposto, e não poucos os que deixaram as vidas nas elevações do pampa, vítimas de idéias que não compartilhavam.
Neste livro de contos, seu autor vai construindo um universo fechado de poucas personagens, mas personagens fortes, as quais se movimentam num clima de alta densidade ficcional. Se há lugar para os barbarismos, para os assassinatos (a lembrar o melhor que escreveu o nosso João Simões Lopes Neto), também há espaço para o lirismo, para a afeição lenta e pausada, para a contemplação suave da paisagem. Eis aí algo fundamental nesta coletânea: a importância do cenário campestre, descrito com profundo senso de observação e com minúcia comovedora; nada escapa ao narrador: os belos poentes, a chuva, o minuano "que soprava fantasmas nos ouvidos das crianças", o sol abrasador que "refletia o suor na sua pele negra e enrugada", a geografia vista pelos olhos da emoção, como em “a lua cheia surgia atrás da coxilha e provava aos ignorantes a existência de Deus". Lugar importante tem todos os sentidos, como nas passagens: "um vento tímido tocou sua pele e levou às suas narinas o cheiro do álcool açucarado"; "sentia o gosto da água e lodo"; "tocou na terra, sentiu a quentura do solo". São narrativas que provocam uma dramática hiperestesia no leitor, o que produz um gozo sensível poucas vezes encontrado nos textos que circulam por aí.
Os tipos humanos do campo são exemplares: o capataz, o estancieiro, a dona-da-casa, os negociantes de escravos, os cativos, os alforriados, os peões, as cozinheiras da casa-grande, os moleques.
Tudo isso está em Guerrilha e solidão, o que já seria um grande mérito. Mas seria um excesso se fosse construído com pouca literatura. Não é o caso. Aqui há boa, verdadeira e vertical literatura. A linguagem é precisa, sem excessos. O léxico, abundante, dá colorido às cenas, e mostra um escritor que conhece seus recursos estéticos.
Mas nem isso ainda seria capaz de convencer, se não houvesse, por detrás de tudo, a natureza humana, latejante e viva, captada em seus momentos de miséria e grandeza. Se o espaço é o pampa, se o tempo é o pretérito, a literatura de Valdomiro Martins é superior a todas as circunstâncias espaciais e temporais, instaurando um belo exemplo dessa aventura única que é a vida.
Isso só acontece quando há um escritor de verdade – que o leitor descobrirá ao percorrer este livro.
Há algo de novo no ar; no caso, na nossa literatura. E algo bom, muito bom.
Boa leitura.